Holocausto Brasileiro

Data25/11/2016 CategoriaCVV

Aos 21 anos, Débora não queria mais viver. Sentia-se profundamente só e achava que não conseguiria mais se encaixar na vida. O vazio e a enorme sensação de não pertencimento tomaram conta da jovem, que tentou o suicídio. A estudante de letras é uma das sobreviventes do Holocausto Brasileiro. A mãe dela, Sueli, que tinha crises de epilepsia, era interna do Hospital Colônia, em Barbacena (MG) e teve a menina arrancada dos braços e cedida para doação. Assim como ela, pelo menos outros 30 recém-nascidos tiveram o mesmo destino por lá.

A história de Sueli e Débora é uma entre as tantas presentes no documentário Holocausto Brasileiro, baseado no livro homônimo da jornalista Daniela Arbex, que emocionam, impactam, assustam, incomodam… A produção, que acaba de estrear na HBO, mostra os horrores que levaram 60 mil pessoas – homens, mulheres, meninos e meninas – à morte por fome, frio, eletrochoques, doenças do corpo e da alma. A maioria internada à força. A maioria sem diagnóstico de transtorno mental. 70% deles, para ser precisa.

Adolescentes grávidas, estupradas, esposas apartadas de casa para que o marido pudesse morar livremente com a amante, meninas de famílias abastadas que perderam a virgindade, pessoas com epilepsia, homossexuais, prostitutas… uma lista interminável na qual fica clara a cultura higienista, de limpeza social. O discurso da agressividade era usado para se cometer violências: se incomodavam, eram retirados da sociedade, mandados para o isolamento.

Foram muitas as atrocidades cometidas entre os muros do Colônia por cerca de 50 anos seguidos. Pacientes comparados a cachorros, uso de eletrochoques como forma de “acalmar” os internos, esquema de venda de cadáveres e ossos para faculdades de medicina. Todas as formas de usurpação da dignidade. Seguidas barbáries nas quais seres humanos chegam a beber água de esgoto e passar fezes no corpo para se proteger.

A produção é primorosa e fundamental para se compreender como as questões de saúde mental eram tratadas. Para entender como, muitas vezes, ainda são. Mostra, como lembra a própria Daniela, que o problema vai muito além da busca por culpados, da cobrança ao Poder Público. Perpassa a necessidade de que este é um problema de todos, no qual não cabe ser conivente.

Leila
CVV – Brasília (DF)

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