Realidade cinzenta

Os fenômenos da natureza, segundo a mitologia, estariam sob o comando das ações dos deuses. Os vulcões, por exemplo, seriam a manifestação da força de Vulcano - deus ro- mano do fogo. Num lapso de sonho ou pesadelo es- queçamos as agressões sofridas pela natureza premida pelas mãos humanas, destroçando o planeta, provocando catástrofes, e imaginemos que foi debaixo da fúria do deus do fogo que, inesperadamente, um vulcão encapsulado sob a geleira Eyjafjallajokul, na Islândia, entrou em erupção em abril de 2010 e, por alguns dias, uma espessa nuvem de fumaça e cinzas inter- rompeu todo o tráfego aéreo do Norte da Eu- ropa, afetando num efeito cascata praticamente todos os continentes. Viajantes afl itos perderam compromissos inadiáveis, de negócios, de lazer, amontoando os aeroportos de frustrações, aborrecimentos e inquietudes pelos prejuízos sofridos com o trans- torno. E o espaço, indiferente às angústias dos viajeiros, dia após dia, insistia em apresentar uma única paisagem: uma realidade cinzenta, como se o planeta estivesse deprimido, mergu- lhado num caos de dor. Isso faz-nos lembrar a paisagem interior dos que são vítimas da depressão, de dores físi- cas e/ou morais atrozes, da solidão, de distúr- bios mentais e do vazio existencial. Um mundo cinzento, áspero, silenciosamente árido, estag- nando seus portadores em “aeroportos” destruí- dos nos seus corações. E assim, aonde poderão ir buscar a luminosidade que lhes permita a se- gurança do voo? Nós, voluntários cevevianos, como po- demos encarar essa realidade tão dolorosa de tantos que nos procuram? Há no livro do médico e dramaturgo Pedro Bloch, intitulado Criança Diz Cada Uma!, publicado em 1963, a frase: “Mamãe, para onde vai o escuro quando você acende a luz?” Não deverá ser essa a nossa pergunta a nós mesmos? Isto é, indagarmo-nos como co- laborar para que o outro afaste as sombras de sua existência e descubra como acender a luz da paz interior? Para isso precisamos oferecer-lhe calor humano, compreensão, sermos empáticos e aguardarmos pacientemente o tempo certo de vê-lo vislumbrar a claridade, onde quer que lhe seja possível, onde houver a esperança, onde ele tiver a certeza de que poderá renascer das cinzas.

Boletim do CVV, setembro de 2010 - Bartyra / Recife (PE)

 

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