O suicídio ronda os bairros ricos de São Paulo

Seção: De olho na notícia
Artigo: O suicídio ronda os bairros ricos de São Paulo
Autor: Comissão Redatora do Boletim
Posto: Comissão Redatora do Boletim
1140/15/04/2010

É preconceito deduzir que pessoas das camadas sociais mais baixas suicidam-se mais que os indivíduos das classes média e alta. Foi o que comprovou um estudo realizado pela Prefeitura do Município de São Paulo e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatando que, de 1996 a 2005, regiões centrais da cidade apresentaram o dobro da taxa de suicídios da periferia. Durante este período, enquanto os bairros centrais tiveram, em média, 6,3 casos para 100 mil habitantes por ano, aqueles localizados em áreas mais distantes apresentaram 3,3 casos.

Em 18 de março de 2010, segundo a jornalista Julliane Silveira, respaldando-se em estudos do geógrafo Daniel Bando, da psiquiatra Sabrina Stefanello, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pesquisadora em suicídio na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e, ainda, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do IBGE são vários os motivos desta discrepância, tais como: renda, migração, estado civil e maior isolamento.

O elevado grau de urbanização e o isolamento típico das grandes cidades são encontrados em São Paulo, principalmente na área central. "Em São Paulo, existe uma relação da localidade com a renda, pois a periferia é mais pobre. Trouxemos essa discussão da renda para nossa pesquisa", disse o geógrafo Daniel Bando. Conforme dados do IBGE, esses locais concentram mais solteiros e separados, estados civis relacionados a maiores chances de suicídio. Em contrapartida, há maior percentual de casados na periferia.

A migração também é fator de risco. Alguns bairros centrais são conhecidos por suas comunidades estrangeiras e de outras partes do país. "Regiões em que as pessoas perdem suas características culturais têm índices mais altos de suicídio", explica a psiquiatra Sabrina Stefanello.

No Brasil, estimativas sugerem que ocorram 24 suicídios por dia, mas o número deve ser 20% maior, pois muitos casos não são registrados. A quantidade de tentativas é de dez a 20 vezes mais alta que a de mortes. Entre os jovens, a taxa multiplicou-se por dez de 1980 a 2000: de 0,4 para 4, o que alerta que o número de casos de suicídio cresceu 60% nos últimos 45 anos, de acordo com a OMS. A organização estima que, de 2002 a 2020, o aumento será de 74%, chegando a um suicídio a cada 20 segundos, hoje, a taxa é de um a cada 40 segundos.

"O que há de mais concreto para explicar o aumento é a associação com transtornos mentais, principalmente a depressão, mais presente e identificada hoje", diz Stefanello. Pessoas que pensam em tirar a própria vida costumam manifestar sinais. "A maioria comenta com alguém próximo. Existe um mito de que quem quer se matar não fala, mas não é verdade. Diz algo como minha vida não vale mais a pena, mostra desesperança", acrescenta a psiquiatra.

E, quantas vezes voluntários do CVV não constatam essa dolorosa realidade? Que estejamos atentos para estes eufemismos. A captação do voluntário por este desejo de morte da outra pessoa pode ser o caminho para que ela desabafe e desista da decisão.

Comissão Redatora do Boletim
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